(...) E depois de toda essa falação, chego ao ponto: mesmo para um desvalido como eu, um herege e um excomungado, a vida é uma catedral de mistérios. Foi desse jeito, alquebrado, sem saber mais o que é o tal de impulso de humana compreensão, descrente da esperança, que você me encontrou. O que afirmo e tenho por certo é que me acerquei de você com passo trêmulo, num avanço vacilante. Nada seria como antes. E fui...
homeMESSAGECREDITARCHIVEEscreva comigo
Passei a noite toda pensando em quando eu era mais moço. Achava que viver experiências me tornariam mais forte - penso agora: “mais forte pra que? Mais forte que o que?” -, pozolhe só, achei que minha época já havia passado e que viveria só, assim autosuficiênte. Para o resto da vida e aí de um segundo pra outro aprendo: “Amor é igual gripe, quando você cria anticorpos capazes de te proteger dele, ele vem de outra forma e você de repente se vê outra vez, deitado na cama, derrubado.” Cá estou eu, eu que achei, eu que achava, eu que acharia, eu que me sentia completamente inteiro. Agora ponho minha mão no peito - sendo que o que aperta é a garganta - e bobo faço cara de fome. Falta um pedaço, sempre faltou ou ela arrancou-o de mim?
Uma coisa eu decidi: não vou mais perder a cabeça. Aquela outra, aquela moça de pavio curto, que se irritava, explodia e se cansava a cada dia que passa deixa de existir mais um pouco. Ando mais centrada, coloco as coisas na balança, penso mais, reflito. Tem coisa que eu deixo passar. Não vale a pena. Tem gente que não vale a dor de cabeça. Tem coisa que não vale uma gastrite nervosa. Entende isso? Não vale. Não vale dor alguma, sacrifício algum.
Eu não assisto programas, não me sento no sofá com frequência, meus amigos não me visitam e eu uso óculos de grau. As pessoas dizem que não saio de casa, que eu sou louco, mas a maioria nem fala comigo. Sem ter a certeza de que viverei amanhã, eu me contento com os sonhos que carrego. Semana passada mataram um homem, um cachorro latiu enquanto eu caminhava em silêncio, e meu tio dirigia um carro longe daqui. Eu odeio o sol, o calor e o suor. Nasci no inverno, e sempre preferi os edredons. Eu não sei falar ao celular e andar ao mesmo tempo, eu acho que existem dragões em meu guarda-roupa, e sempre brinquei debaixo do chuveiro. Eu não me engano, mas me contorno. Sempre quis ser um guerreiro medieval. Às vezes prefiro o campo, mas outras quero no rosto a garoa do céu acinzentado de uma metrópole que cresce descontroladamente. O meu perfume é doce e todo mundo reclama que eu passo demais. Até mesmo quando eu não passo. Ninguém desvenda o mistério nos meus olhos, ninguém olha neles. Eu sorrio fácil, algumas pessoas têm o dom de me fazer sentir um aconchego apenas por estar perto. Eu coleciono coisas que roubei dos meus amigos. E tenho dor de cabeça com frequência. Tudo que eu toco, quebra. Eu nunca tive sorte. Eu sou engraçado, até mesmo quando sério, pois mordo a língua como um leão pra passar a raiva. As pessoas me convidam, mas eu nunca apareço. Ninguém sabe por onde eu ando, nem o que comi no almoço. Esperam que eu ajude em algo que não sei dar nome. A verdade é que as pessoas não me conhecem, não sabem a cor do meu cabelo, nem porque eu comprei um chinelo novo. A verdade é que elas precisam de alguém além delas mesmas, além da imagem fétida que veem no espelho do quarto, além da bailarina que dança na caixa de música. A verdade é que esse cara não sou eu. Eu não tenho esse costume de dançar a música dos outros, e nada tenho comigo, além de um cachorro que dorme em minha cama. Esse casaco não é meu, não fui eu quem dirigiu até aqui. Eu faço parte do sereno, mas não sou o orvalho. Os emaranhados do meu cabelo são como nós, porque eu nunca me importei com isso. Eu não sou o que conhecem, eu vou além do suco de morango e da bendita preguiça de fazer compras. Eu não sou Eu.
— Esse Cara Não Sou Eu, Adriano C. (via caminhaodegas)